Aparecida do Norte e lockdown: mais de 70% desempregado Leave a comment

Dependente do turismo, o município sofre as consequências das medidas de lockdown: mais de 70% da população está desempregada

Religiosamente, milhares de peregrinos em Aparecida do Norte (SP) percorrem todos os dias os 392 metros de extensão da chamada passarela da fé — uma espécie de túnel suspenso rodeado por grades —, que leva os fiéis até a entrada do Santuário Nacional da padroeira. Na quinta-feira (18/03/21), porém, havia 11 pessoas no local, quatro das quais funcionárias do templo.

O cenário desolador traduz a nova realidade do município, que viu diminuir as atividades econômicas na mesma proporção em que aumentavam as restrições impostas pelos governantes para tentar conter a pandemia de coronavírus. A paralisação total chegou há pouco mais de uma semana, quando o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), decretou a chamada “fase emergencial” — etapa ainda mais rígida do plano estadual de contingência da covid-19.

A média anual de devotos que visitam o município localizado no Vale do Paraíba, no interior de São Paulo, é de 12 milhões de fiéis, segundo dados da prefeitura. São pessoas cujo objetivo é rezar para pedir ou agradecer. Com a chegada do vírus chinês e os sucessivos lockdowns da gestão tucana, 3,3 milhões de religiosos passaram pela cidade em 2020.

Número 75% menor que o registrado no ano anterior. Em linhas gerais, é o menor fluxo de visitantes em 50 anos. Quase metade do movimento foi registrada de janeiro a março de 2020 — período em que 1,5 milhão de pessoas estiveram em Aparecida.

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Nem mesmo o tradicional 12 de outubro, Dia de Nossa Senhora, resolveu o problema. A data registrou 30 mil romeiros no ano passado. Em 2019, mais de 160 mil peregrinos participaram da festividade. A assessoria da principal catedral de Aparecida informou que ainda não é possível prever quantos visitantes a cidade receberá até dezembro de 2021, já que se faz a projeção com base nos últimos dois anos, e 2020 foi atípico. A expectativa, entretanto, é de baixa adesão, uma vez que o Brasil enfrenta a segunda onda da doença e a vacina para todos ainda não se distingue no horizonte.

Dependente do turismo, a população de Aparecida suplica por ajuda.

Cidade destruída

Manifestação contra o isolamento de Doria | Foto: Crystian Costa/Revista Oeste

“Meu município está quebrado”, resumiu o prefeito Luiz Carlos Siqueira (Podemos). “Nossos restaurantes estão fechados e todos demitiram em massa. Cada dia a situação piora. Mais de 70% dos moradores estão desempregados”, relatou, ao mencionar as incontáveis placas de “aluga-se” em praticamente todos os pontos comerciais que antes recebiam intenso fluxo de gente.

Além disso, o prefeito citou as despesas que Aparecida contraiu. “Ao assumir [em 2020], fiz um levantamento. Estamos com R$ 103 milhões de dívida ativa. É representativo para um município pequeno. Se a população não tem dinheiro, como vai pagar os tributos?”, indagou Siqueira. “Aparecida se tornou um local triste.”

Claudio Marques, 37, vive em Aparecida desde que nasceu. Dono de quatro lojas de artigos religiosos no santuário, teve de dispensar cinco trabalhadores com carteira assinada. “Sozinho, faço as vendas on-line, que não chegam a 10% do nosso faturamento original”, relatou. “Graças a Deus, ainda estou conseguindo manter meu negócio em pé”, disse, ao se recordar de um restaurante que fechou no ano passado em razão do isolamento. “À época, eu tinha dez funcionários registrados. Mas precisei mandá-los embora. Segurei o máximo que eu pude”, lembrou. “Hoje, tenho apenas duas funcionárias em casa, com salário reduzido. Aparecida vive um colapso econômico. É uma cidade fantasma”.

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O setor de hotelaria foi severamente impactado. Harley de Carvalho, 43, possui quatro hotéis. Dois deles estão fechados. Nascido na cidade, o empresário lamenta os quartos vazios e o caos financeiro. “Minha agenda era lotada de clientes. Agora, estamos riscando nomes. Em 12 de outubro do ano passado, havia apenas dez pessoas hospedadas aqui, em pleno feriado.

Antes, lotava nossa capacidade, de aproximadamente 300 pessoas”, afirmou. Segundo Carvalho, foi necessário dispensar dez funcionários de um total de 45. “Não tenho como demiti-los. Dei férias para alguns. São pessoas que trabalham aqui há anos”, disse. “Quero ganhar o suficiente para mantê-los. Já vendi até carro. Minha prioridade não é acumular dinheiro. É sobreviver.”

Harley é crítico do lockdown. “Não funciona”, disparou. “O intuito era preparar o sistema público de saúde. Ficamos sete meses com tudo parado. Tão logo houve a queda de contaminações, desmontaram os hospitais de campanha. Um erro. Além disso, vimos que, na verdade, o poder público não preparou nada”, observou. “É justo a população pagar por isso? As pessoas estão apavoradas, com medo, angustiadas e com doenças que não a covid-19.” Segundo o empresário, Doria não tem a dimensão da realidade dos problemas do Estado. Aparecida, por exemplo, não está com o sistema de saúde em colapso.

Pensa da mesma forma o empreendedor Afonso Pompeu, 57, dono de uma loja que vende peças para carros. Contudo, queixa-se de que, apesar de ser considerado essencial, não tem clientes. “De que adianta, se todo o resto está fechado?”, questionou. “Dos 14 funcionários que eu tinha, fiquei com sete. Dói cortar empregos. Todo empresário tem vontade de crescer, gerar emprego e distribuir renda. Aqui, está ocorrendo o inverso. Pelo que a gente escuta, a cidade não está no limite na Santa Casa. Poderíamos cair para uma fase mais branda. Depende da boa vontade do governador.”

Comércio fechado, centro de Aparecida | Foto: Crystian Costa/Revista Oeste

Reação

Usando máscara, a população da cidade se manifestou contra o isolamento. O protesto foi organizado por comerciantes de vários setores. Segundo Paloma Radwanski, uma das organizadoras do movimento e proprietária do aquário da cidade, a reivindicação das pessoas é a reabertura da economia. “Queremos trabalhar. Poderíamos voltar à fase laranja [do plano de contingência da covid-19], pelo menos”, declarou. “Nosso objetivo é sensibilizar o governador.”

Paulo Siqueira, 48 anos, é proprietário de uma pequena fábrica na cidade e de uma banca na maior feira de Aparecida (2,5 mil feirantes). Ao todo, ele emprega 20 pessoas. Contudo, está preocupado com a situação financeira. “Hoje, minha fábrica está fechada e a feira não pode funcionar. Até o último mês, eu consegui pagar os salários dos funcionários”, contou. “Daqui para a frente, não sei como vai ser.”

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Dona de uma barraca de camisetas na mesma feira em que Paulo trabalha, Rosana Maria, 53, queixou-se do fechamento de Aparecida promovido pelo governo do Estado. “Tem gente que depende da feira. A maior parte da cidade vive disso. Então, é preciso reabrir o comércio. Temos de movimentar a economia”, disse.

O Movimento em Favor do Comércio, Hotéis e Atrativos Turísticos de Aparecida (SP) também divulgou um documento pela reabertura do comércio. Compõem o grupo representantes de diversos setores da economia. “Somos cientes do risco causado pela transmissão do vírus em todo o país, mas queremos demonstrar nossa indignação com a política escolhida pelo governo do Estado e seu comitê gestor para cuidar e tratar a pandemia, que vem prejudicando o trabalho formal, informal e o comércio”, informou um trecho do documento.

A iniciativa de empresários mostra que não há mais recursos financeiros para amortecer os impactos do isolamento. “Não possuímos mais reservas”, registrou a carta. “O governo federal já não dá mais assistência à folha de pagamento dos funcionários. Ainda tivemos o fechamento no fim de semana de Ano-Novo, de 25 de janeiro a 6 de fevereiro, quando o governo do Estado prometeu que seria o último esforço de fechamento.” Na conclusão, o documento é taxativo: “É impossível para a cidade continuar com total restrição aos nossos setores e a igreja fechada aos cultos”.

Fonte: Revista Oeste

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